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Raiva

A raiva, além de ser uma doença neurológica provocada por um vírus, é uma manifestação emocional, que a semelhança de sua homônima, e não por acaso, pode causar prejuízos incalculáveis. A primeira, a doença, mata pouco tempo depois de manifestados os seus primeiros sintomas. A segunda, a emoção, mata os seus relacionamentos aos poucos, lentamente.
Se nada em sua vida parece acontecer do jeito que você gostaria; se seus amigos ou clientes têm se afastado; se seu parceiro não sabe valorizar a relação e está sempre na defensiva; se você se sente injustiçado pelo seu patrão ou chefe, considere a possibilidade de que suas frequentes explosões em resposta ao mínimo sinal de imprecisão ou desaprovação estejam prejudicando sua vida. Principalmente se, ao se acalmar, aquela reação incontrolável que lhe parecia tão justa no momento, tem se transformado em culpa e arrependimento.
Nem sempre a raiva é negativa. Quando você recebe uma ameaça ou é diretamente atacado, ou quando seus direitos são violados, ela o ajuda a mobilizar entre os seus recursos pessoais, a energia suficiente para se defender tanto física quanto emocionalmente, e colocar os limites adequados a cada situação. Mas, muitas vezes, a raiva é usada como um instrumento de manipulação e abuso.
Os conceitos de que seres humanos são portadores de genes da violência e que a agressão seria o resultado natural da frustração na busca de seus objetivos e desejos, não encontram evidências científicas. Alguns neurotransmissores estão ligados a potencialização do comportamento agressivo, mas em si mesmos não têm a capacidade de fazer a pessoa sentir raiva. A emoção surge em função do julgamento e da interpretação pessoal que cada um dá a cada evento. Agredir através de um ato raivoso é apenas uma escolha entre as formas de comportamento disponíveis para ação. A verdade é que sentir raiva é muito mais determinado por pensamentos e crenças do que pela bioquímica ou genética. O comportamento agressivo é um fenômeno que pode também ser determinado pelo aprendizado social, que é o processo através do qual você imita seus pais ou outras pessoas significativas de sua vida. Se seus pais falavam alto, ameaçavam as pessoas ou reclamavam dos outros quando se sentiam mal, provavelmente você faz o mesmo.
Tudo pode começar com a sensação de ter motivos legítimos: de estar sempre certo e os demais, errados. A infinidade de pequenas perdas e desconfortos experimentados parece ser sempre de responsabilidade dos outros. Ao responsabilizar os outros pela satisfação de suas necessidades básicas, a pessoa enraivecida abre mão de seu próprio poder em relação a isso. E a insistência em tentar resolver problemas usando a raiva apenas piora as coisas – recebe de volta defensividade, contra-ataques, afastamento.
A raiva crônica mantém seu corpo em permanente estado de emergência e assim retarda, deprime ou suspende importantes funções corporais, contribuindo para o desenvolvimento de doenças que vão de distúrbios digestivos, hipertensão e doença cardíaca, à suscetibilidade a infecções, eczemas, cefaleias e muitas outras. Sentir raiva de maneira crônica, seja ela reprimida ou expressa, faz mal. A raiva crônica que é manifesta através de gritos, quebra de objetos, agressões verbais ou físicas, prolonga e sobrecarrega as mudanças hormonais correlatas, alimenta-se de si mesma e se prolonga indefinidamente. A raiva crônica suprimida mobiliza todas as reações do sistema nervoso simpático, responsável pela ativação do metabolismo geral do corpo que, sem conseguir descarregar a tensão gerada, proporciona um efeito que pode ser comparado ao pisar no acelerador de um carro até o fundo e ao mesmo tempo, freá-lo ao máximo.
Pessoas enraivecidas são consideradas perigosas e são abordadas como se maneja uma arma carregada. A raiva afugenta. Assusta. O ataque raivoso cumpre o seu papel de advertir aos demais que parem de fazer o que está ofendendo ou machucando você, mas faz com que eles se sintam feridos também. Aos poucos as pessoas vão criando resistências emocionais contra você – quanto mais raiva você expressa, menos eficiente essa raiva se torna, menos os outros lhe dão ouvidos, e mais afastado você vai se sentindo. Nos relacionamentos enraivecidos a energia é direcionada para a construção de paredes protetoras ao invés de para a comunicação e resolução de problemas. Ignorar, emitir julgamentos, demonstrar irritabilidade, atacar, afastar-se, vingar-se ou abster-se de reagir são defesas típicas, que assim que instaladas tornam a pessoa rígida e rápida no revide. Como a raiva é usada com muita frequência para coagir os outros a mudar, eles erguem defesas não só para se proteger de mágoas, mas também para evitar se sentirem controlados.
Pessoas enraivecidas têm menos trabalho, menos recomendações, recebem menos ajuda do pessoal administrativo no seu emprego, menos simpatia pelas suas solicitações.
A pessoa que extravasa sua raiva contra qualquer um que a desagrade, acaba cortando uma importante via de acesso a amizades intimas, e o resultado é o isolamento da rede de apoio social. A raiva não deixa a pessoa perceber quando um apoio verdadeiro está disponível para ela, ou as suas expectativas irreais e exageradas podem fazer com que o apoio existente não lhe pareça válido. Mantendo as pessoas distantes, recebem menos apoio, usufruem menos alegrias e tem maior sentimento de solidão do que as pessoas não hostis. A conexão entre o isolamento e uma ampla variedade de doenças pode explicar por que as pessoas hostis têm índices mais elevados de mortalidade para muitas doenças diferentes. Da mesma forma que os apoios sociais, as defesas do corpo também diminuem em função da raiva crônica.
A raiva existe apenas como uma opção, nem sempre válida, para interromper o estresse provocado pela dor. Não há nada que esteja por natureza, inseparavelmente ligado a ela, a não ser o fato de que você está sofrendo e está tentando fazer algo a respeito.
Esse estresse pode vir de inúmeras fontes, desde uma sensação de tensão, provocada por uma dor física, uma ameaça a sua integridade corporal ou psicológica, ou ainda de emoções dolorosas aparentemente sob controle.
Muita gente guarda no íntimo uma sensação básica de serem pessoas ruins, erradas ou de não terem valor, e essa sensação pode ser ativada de forma intensa por críticas ou observações, por mais insignificantes que sejam. A raiva então é usada para bloquear a percepção desses sentimentos dolorosos, empurrando-os para fora da consciência e para descarregar toda a dor que tenha sido ocasionada por eles e experimentada conscientemente. A raiva também pode ser usada para descarregar elevados níveis de excitação experimentados em períodos de ansiedade, mágoa, culpa e outras emoções negativas. Ela apaga a culpa e a vergonha, deslocando para o outro a responsabilidade.
Como vimos, apenas o estresse não é suficiente para gerar raiva – é necessário o fator psicológico para converter o estresse em hostilidade. O enfrentamento desse desconforto, que poderia ser feito através de lágrimas, exercícios de relaxamento, ginástica, verbalizações e até mesmo pela resolução de problemas, vai ser feito, inúmeras vezes, através da raiva, gerada basicamente por dois pensamentos: alguém agiu deliberadamente para prejudicar-me, ou então, sabia ou deveria saber como agir corretamente e por falta de discernimento ou egoísmo, não o fez. A percepção de que a dor que ele sente é culpa do outro, visto então como mau, errado, e merecedor de punição, detona a raiva e cria as condições para o estabelecimento do ciclo repetitivo: mais estresse, mais pensamentos geradores de raiva, mais raiva, mantendo-se ativo por horas, ou mesmo dias, sem arrefecer. Muitas vezes, um pensamento gerador de raiva cria estresse, por menor que seja, onde antes não havia nada, e o ciclo se inicia. Nesta segunda forma sempre existe um sentimento de perda, rejeição, desespero, medo, frustração, mágoa, ou abandono, entre o pensamento e a raiva.
Existe mais um fator a ser considerado sobre a raiva: ela pode não ter base legitima, se os pensamentos usados para gerá-la não forem consistentes. Esses pensamentos podem ser falsos, arbitrários, ou na melhor das hipóteses, questionáveis. Ou ainda, um engano absoluto, provocado pela interferência de elementos subjetivos como o medo ou o desejo. A tempestade emocional desencadeada por eles passa a ser então uma reação a uma ofensa imaginada, e não a uma questão real. É certo que naquele momento a preocupação maior é liberar ou bloquear a dor, e não se as percepções são verdadeiras ou não, mas certamente mais tarde algo vai haver para ser lamentado.
Alguns estudos mostraram que a expressão da raiva em contraponto com a tristeza é vista pelos demais como sinal de status e competência. Mas isso não impede que a raiva crônica afete a saúde, torne a pessoa insegura e atraia ataques. Quem afirma orgulhosamente ter “gênio forte”, ou que é “calmo e dócil”, desde que não provocado, certamente sabe do que estamos falando. Raiva gera raiva.
Não há dúvidas que todos os sentimentos, independente de sua natureza, têm uma legitimidade intrínseca e expressá-los é fundamental. Mas a raiva de maneira geral é destrutiva. O que precisa ser expresso, reconhecido e investigado é o sofrimento humano que está por trás dela.

Referências bibliográficas:
Ballone GJ – Raiva e Ódio, emoções negativas – in. PsiqWeb, Internet, disponível em revisto em 2003
McKay, M.; Rogers, P.D.; Mackay, J., Quando a Raiva Dói – Acalmando a tempestade interior. São Paulo: Summus Editorial Ltda, 2001.
Malinverni, G. “Bases Biológicas da Agressividade”. Viver Mente e Cérebro, Ano XIV nº. 154, Novembro 2005, pág.26/31.

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